09/06: Dia Internacional dos Arquivos e uma reflexão sobre a 2ª Conferência Nacional de Arquivos
Publicação:
Hoje, 09 de junho, celebramos o Dia Internacional dos Arquivos. A data, instituída pelo Conselho Internacional de Arquivos (ICA) como um convite à reflexão sobre o papel das instituições arquivísticas em nossa sociedade e à sua valorização, nos motiva a pensar a partir de nossas realidades locais. Qual o lugar dos Arquivos e de seus profissionais no Brasil e no Rio Grande do Sul na atualidade? O que temos discutido e reivindicado, quais os avanços e desafios de nossa área?
Este ano, para contribuir com essa agenda de diálogo, entendemos que nada seria mais adequado do que falar da 2ª Conferência Nacional de Arquivos, evento aguardado pela comunidade arquivística por 15 anos e que agora, em 2026, mobilizou grandes contingentes no país inteiro. Para isso vamos compartilhar o relato de Carla Segatto e Clarissa Sommer, servidoras do APERS que se dedicaram à construção da Conferência desde a etapa estadual e compuseram a delegação do Rio Grande do Sul na Conferência Nacional.
Relato de Carla Segatto, arquivista e diretora do APERS:
"Entre os dias 26 e 28 de maio de 2026, participei da 2ª Conferência Nacional de Arquivos (2ª CNARQ), em Brasília, representando a Rede de Arquivos Públicos Estaduais e do Distrito Federal e integrando a representação do Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul (APERS). Também esteve presente a historiadora Clarissa Sommer, colega do APERS, eleita delegada pelo Poder Executivo Estadual.
Foram três dias intensos de debates, trocas de experiências e construção coletiva em torno do tema “Arquivos: agentes da cidadania e da democracia”. Atuei no Eixo 1 "Marco Legal, Governança Arquivística e Perspectivas para uma Política Nacional de Arquivos", espaço em que discutimos propostas voltadas ao fortalecimento da política arquivística brasileira e ao papel estratégico dos arquivos para a administração pública e para a garantia de direitos.
Ao longo das discussões, defendi as pautas aprovadas na etapa estadual do Rio Grande do Sul, contribuindo para que as reflexões construídas coletivamente no estado estivessem presentes no debate nacional. Entre elas, trabalhamos para dar visibilidade à necessidade de incorporar às políticas arquivísticas ações voltadas não apenas à prevenção de riscos e à preparação para emergências, mas também à recuperação de acervos atingidos por desastres. A experiência recente vivida pelo Rio Grande do Sul evidenciou a vulnerabilidade dos arquivos diante dos eventos climáticos extremos e reforçou a urgência de pensar estratégias permanentes de resposta e recuperação.
Nosso esforço foi no sentido de ampliar o olhar sobre essa questão, compreendendo que os impactos das mudanças climáticas já não podem ser tratados como uma realidade restrita a determinadas regiões. Os eventos extremos têm se tornado cada vez mais frequentes e intensos, exigindo que os arquivos estejam preparados para enfrentar situações de desastre em qualquer parte do país. Mais do que identificar áreas de risco, é preciso construir uma cultura de prevenção, planejamento, adaptação e resiliência que fortaleça as instituições arquivísticas diante dos desafios que já se apresentam no Brasil e em todo o mundo.
Mais do que acompanhar os debates, a participação na Conferência foi uma oportunidade de contribuir para a construção de diretrizes nacionais para os arquivos brasileiros, dialogando com profissionais e instituições de diferentes regiões do país. Também foi uma experiência de escuta, aprendizado e fortalecimento de redes, reafirmando a importância dos espaços participativos para a construção de políticas públicas.
Retorno dessa experiência com a convicção de que fortalecer os arquivos é fortalecer a cidadania, a transparência, a memória e a garantia de direitos."
Relato de Clarissa Sommer, historiadora, Analista em Assuntos Culturais do APERS:
"Após intensa dedicação à construção da 2ª CNARQ no Rio Grande do Sul, fazer parte de nossa delegação em Brasília entre os dias 26 e 28 de maio foi uma oportunidade ímpar para que eu pudesse me apropriar da ampla diversidade que a área de Arquivos possui em nosso país e contribuir, desde as experiências e demandas regionais, com a construção de uma política nacional que incorpore essa diversidade. Tivemos um evento grande, que reuniu representantes eleitos a partir de 24 conferência estaduais e distrital e 10 conferências livres, além de convidados e observadores, totalizando 506 participantes na Etapa Nacional, que se reuniram com a responsabilidade de debater e votar a partir de 380 propostas aprovadas nas etapas preparatórias. Com este cenário, teço alguns comentários a partir de cada dia do evento.
26/05 foi marcado pela abertura institucional e pela leitura e aprovação do regulamento que nortearia os trabalhos ao longo de toda a Conferência. Ao longo da manhã, além da presença e a condução de Mônica Lima, diretora-geral do Arquivo Nacional, tivemos a participação de quatro ministras de Estado e duas Secretárias Nacionais, representantes das áreas de gestão e inovação, cultura, igualdade racial, direitos humanos e cidadania, participação social e direitos indígenas, em um movimento significativo de trazer os arquivos para a ordem do dia do governo federal de modo transversal e conectado às demandas democráticas de nosso tempo. O turno da tarde foi inteiramente dedicado ao regulamento, tendo como ponto alto do debate a metodologia de análise e aprovação das propostas nascidas na base.
O 2º dia foi dedicado aos trabalhos nos eixos temáticos. Junto da diretora Carla Segatto, atuei no Eixo 1, por percebe-lo como espaço primordial para discussão da Política Nacional de Arquivos que desejamos levar à diante no próximo período. Importante destacar que nossa delação foi composta por 16 pessoas, e havia representantes do estado inseridos nos demais eixos. No Eixo 1 reuniram-se cerca de 80 pessoas, que se debruçaram sobre 67 propostas oriundas das etapas preparatórias. Entre os temas estavam a arquitetura institucional dos Arquivos; o papel de Arquivo Nacional, CONARQ, SINAR e instituições arquivísticas nos estados e municípios; a fiscalização quanto à implementação da gestão documental em todas as esferas, níveis e Poderes; a garantia de posição hierárquica estratégica e de recursos orçamentários para a efetivação da política; a efetiva publicação da Política Nacional a partir dos resultados da Conferência; a criação de programas e fundos voltados à institucionalização de arquivos assim como à gestão, preservação e garantia de acesso a acervos, considerando em especial a pauta das mudanças climáticas. Buscamos sensibilizar os participantes quanto à centralidade da questão, compartilhando com o Brasil nossa experiência diante das enchentes que assolaram o RS em 2024.
Após a escolha e lapidação das propostas nos grupos, na manhã do 3º dia teve lugar a Plenária Final, momento dedicado à apresentação e priorização das propostas que seriam destacadas no documento final. Foram apresentadas cinco propostas de cada um dos seis eixos, das quais três foram escolhidas, resultando em 18 proposições finais. O turno da tarde foi dedicado à apresentação e aprovação de dezenas de moções. Foi um dia intenso, extenuante também, mas primordial para demonstrar a vivacidade dos Arquivos nacionalmente.
Para mim, que estive delegada na 1ª CNARQ em 2011, ficou perceptível que os últimos 15 anos foram palco de transformações no seio da comunidade arquivística e que essas mudanças vêm incorporando agentes e conceitos ao debate da Política Nacional de Arquivos. Nesse sentido, destaco a atuação mobilizada de representantes de arquivos comunitários e LGBTQIAPN+, que se inseriram firmemente nas propostas aprovadas. Embora eu seja historiadora e entenda os Arquivos como um campo de atuação multiprofissional - entendo, inclusive, que apenas nesse caminho seremos capazes de garantir o fortalecimento dessas instituições na gestão pública e na cultura nacional - não poderia deixar de citar também o quão exemplar foi a mobilização das/dos arquivistas, que de modo aguerrido lutaram para a que pauta de criação do seu Conselho Profissional fosse priorizada. Estimo que os debates estimulados pelo processo conferencial em todo o território nacional sigam dando frutos. Que nos acostumemos a incorporar as reflexões teóricas e mobilizações políticas no cotidiano do mundo dos Arquivos, e que possamos construir redes e trabalhos colaborativos."
O espírito de mobilização e valorização dos Arquivos trazido pela 2ª CNARQ tem tudo a ver com o que celebramos no 09 de junho. Viva o Dia Internacional dos Arquivos e o avanço do fazer arquivístico no Brasil!