Descobrindo o acervo: censura ao Les Girls
Em 1964 surge um grupo de artistas travestis, o Les Girls. Em 1966 a censura proibi o grupo de se apresentar em Porto Alegre.
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O Les Girls foi um grupo de artistas travestis que surgiu em 1964 no Rio de Janeiro. Vale ressaltar que até a virada da década de 50 para 60, a designação travesti não estava intrinsicamente relacionado a uma maneira de pensar gênero ou sexualidade, como fazemos atualmente. A partir da década de 1950, Ivaná se tornou a grande referência para o que ficou conhecido como ‘travesti artístico’. Todas as informações acerca da perspectiva do termo travesti e sobre a formação do grupo Les Girls foram retiradas da exposição virtual “Les Girls 60 anos: charme, glamour e sucesso” produzida pelo Museu Bajubá. Para acessar a exposição virtual, basta clicar aqui.
Em 1957 estreou nos Estados Unidos o filme Les Girls. Tratava-se de uma amizade entre três amigas e suas desventuras amorosas. Possuía coreografias grandiosas, figurinos luxuosos e belas composições musicais. A amizade entre as mulheres e as características do filme inspiraram a produção aqui no Brasil. O show foi roteirizado por Meira Guimarães, música de João Roberto Kelly e direção de Luís Haroldo. Sua estréia ocorreu no Rio em 05 de dezembro de 1964 e em 15 de março de 1965 o grupo fazia sua centésima apresentação. O show ocorreu diversas vezes em São Paulo e alcançou carreira internacional, já com uma formação diferente da original, ao se apresentar em Punta Del Este em 1967.
A partir do ano de 1964, o Brasil entrou em um período ditatorial no qual a liberdade de expressão sofreu severamente. Questões que versassem sexualidade e gênero acabavam sofrendo de alguma forma, pois tensionar papéis de gênero afetava negativamente a moral e os bons costumes, de acordo com o regime da época.
Em 1966, o então Teatro Leopoldina, havia contratado para temporada em Porto Alegre o espetáculo Les Girls. Porém, apesar do sucesso estrondoso do grupo, o Teatro recebeu uma portaria do Diretor do Departamento de Fiscalização dos Serviços de Diversões Públicas (Censura) (D.R.S.D.P.), negando autorização para exibição da peça, na qual ele argumenta que ao seu departamento "compete zelar pela moral e bons costumes, impedindo que as diversões públicas se desvirtuam de suas finalidades". No dia seguinte, o Teatro entrou com um pedido de Mandado de segurança, solicitando uma liminar para continuar com a peça.
O advogado trouxe onze pontos de argumentação. Destacamos aqui alguns deles:
1) Aponta que o Teatro teria um prejuízo que o abalaria, pois os ingressos já estavam vendidos e seu valor foi direcionado a gastos com publicidade.
2) Realça o “altíssimo gabarito artístico” da peça.
3 e 4) Usa exemplos do mundo onde shows parecidos são aclamados, como em Paris, Londres e Nova York. Além do próprio “Les Girls” estar em cartaz em São Paulo e Guanabara.
9) Aponta que espetáculo de “travesti” sempre houve no mundo, exemplificando com obras do passado, como Aristófanes, na Grécia e um filme hollywoodiano. Ao fim, provoca: “Será agora nossa mentalidade tão provinciana que impedira à apresentação desse espetáculo em Porto Alegre?”
No mesmo dia o pedido foi indeferido. O diretor do D.R.S.D.P. contra argumentou todos os pontos trazidos pelo Teatro e seu advogado, escrevendo em uma parte sobre a "alegação de haver feito publicidade antecipada do espetáculo e ter firmado contrato com determinada vedete, revela, no caso presente, puro espírito de aventura, procurando estabelecer por tais circunstâncias um clima de coação, (...) forçando um pronunciamento favorável da censura …".
Em relação às apresentações que ocorreram em outras cidades do Brasil, afirma não levar a sério decisões de liberação da peça pelo órgão em outros estados, dizendo que “entendemos falecer à autoridade” neles. No que diz respeito à referência feita sobre o teatro grego, o juiz aponta que "Seria pura ignomínia comparar o clássico e puro teatro grego, manifestações de arte, com à exibição pretendida, pela qual se daria cobertura oficial à uma aberração sexual, pelo menos aparente.".
O processo acaba com um último parágrafo da decisão
"De nenhum modo, portanto, há como reconhecer direito à apresentação de “Les Girls”, nesta capital, e, menos ainda, direito líquido e certo, prevalecendo, por seus fundamentos, à proibição que decorre da portaria 4/66, impugnada e visada pelo mandado de segurança."
O processo também conta com anexos de reportagens e jornais sobre a peça e fontes de argumentos do juiz na contra argumentação ao pedido.
Sobre o que o caso de censura ao Les Girls nos faz refletir?
O trabalho do pesquisador não está somente na leitura da fonte, mas também em sua interpretação. Essa interpretação conta com o questionamento ativo das informações contidas no documento. A partir disso, é possível extrairmos inúmeras considerações e levantarmos perguntas sobre o caso de censura do espetáculo Les Girls.
Órgãos de censura já eram comuns desde a era Vargas, mas após 1964 suas ações se tornaram mais firmes e inflexíveis. No período do processo, já haviam entrado em vigor 3 Atos Institucionais, diminuindo e limitando atuação de todos os órgãos democráticos e aumentando vigilância e perseguição.
O segundo elemento que podemos destacar é o ataque à arte durante a ditadura militar. Em depoimento para um livro, um ex-militar fala que para “controlar” a população eles começaram pelo elo mais fraco, que pra eles seriam as artes, chegando a atacar deliberadamente teatros apenas para agredir os atores e equipe, destruindo o local como uma forma de mandar um “recado” e lidar com os “comunistas”. Vivendo em um período no qual estava em ascensão as censuras e controles da ditadura, o teatro se esforçava para se manter vivo e atuante, trazendo arte para seu público.
Créditos da imagem:
A obra escolhida para ilustrar o caso de censura ao “Les Girls” é uma fotografia de autoria desconhecida, intitulada: Les Girls em Op Art.







