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Entrevista com Matheus Batalha Bom - Parte 2

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APERS Entrevista
APERS Entrevista - Foto: Divulga APERS

Na semana passada, conhecemos um pouco dos trabalhos de Matheus Batalha Bom, tanto sua pesquisa de mestrado quanto o doutorado em desenvolvimento. Vamos ler o restante da entrevista abaixo!

5) Um argumento importante no seu trabalho é o caráter poroso das fronteiras entre escravidão e liberdade. Você pode explicar melhor?

Normalmente, os estudiosos da escravidão e pós-emancipação alertam para as heranças escravistas com as quais os libertos tiveram que lidar. Também, já se discursou e escreveu muito sobre as margens de liberdade dentro da escravidão. Os processos de autonomia dos trabalhadores escravizados, as lutas por alforria, criação de laços familiares, produção de subsistência própria e meios de vida, etc. Essas duas vertentes são discutidas na minha dissertação. Mas o caráter poroso responde a uma série de outras questões, que estão para além desses dois polos. Não podemos esquecer que Jaguarão nasceu em meio a uma disputa entre as coroas espanhola e portuguesa, durante o final do século XVIII. A cidade é fronteiriça e é marcada historicamente por conflitos, atos diplomáticos e uma infinidade de relações. Portanto, o termo porosas fronteiras também remete a uma questão geográfica que tem um peso significativo nas experiências negras, já que no período estudado, no outro lado do Rio Jaguarão, a escravidão já estava extinta. Já no lado de cá (perspectiva brasileira) a cidade de Jaguarão ainda mantinha grande parte das pessoas negras em cativeiro. O trânsito entre as fronteiras era intenso e modificava os significados de liberdade e escravidão constantemente. Além disso, nas décadas finais do XIX, o convívio de escravizados, libertos e negros livres era significativo. Era comum, em uma mesma família negra, existir uma relação de pessoas de condições jurídicas diferentes. Isso modificava a própria visão que eles tinham de suas experiências. Por exemplo, um escravizado que tinha amigos e familiares livres, tendia a tensionar muito mais sua condição, não aceitando qualquer tratamento que ele julgasse inapropriado a sua pessoa. A liberdade, com isso, já estava dentro da escravidão, e essa assumia novas faces, as quais só percebemos quando pesquisamos e temos contatos com essas histórias. Existiam, assim, muitas definições de escravidão.

6) Qual é o papel das fontes do Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul nas suas pesquisas e nas suas reflexões?

Matheus Batalha Bom
Matheus Batalha Bom

Hoje dou muita risada pensando na minha relação com as fontes. Sou uma pessoa que vive mais no mundo mental do que propriamente no real. Pensar, imaginar, são componentes intrínsecos na minha vida. No início da graduação ganhei uma bolsa em Teoria da História. Era orientado pela professora Fernanda Severo. Isso potencializou ainda mais minha imersão na imaginação. Concomitantemente, ingressei no LAHISP [Laboratório de História Social e Política]. E, nas reuniões desse grupo ficava nítido meu apego ao teórico. Nesse contexto, o Caiuá [Cardoso Al-Alam], brincando, disse o seguinte: desce desse panteão Matheus! Caí na risada. Mesmo em forma de brincadeira aquilo influenciou minhas escolhas futuras, ou seja, precisava entender como era pesquisar, ter contato com as fontes e, melhor, saber a fundo a natureza das próprias discussões que se fazia na Teoria da História: funções do historiador, objetividade/subjetividade da história, como escrever histórias a partir de fontes extremamente filtradas pelo discurso e pelo tempo, entre muitas outras. Assim, desde o final do primeiro ano da graduação minha relação com a documentação é intensa. Começou no Instituto Histórico e Geográfico de Jaguarão (IHGJ) e depois seguiu no Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul (APERS). Neste último, meu primeiro contato se deu durante o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Foi uma experiência rápida onde eu procurava, através dos processos criminais, algum vestígio sobre fugas de presos da Cadeia Civil de Jaguarão (meu objeto de estudo naquele período). Mas o APERS teve importância maior na minha trajetória quando iniciei o mestrado. Naqueles anos pesquisei, principalmente, inventários e processos criminais. Passei muitos dias no Arquivo me esbaldando com incríveis histórias de vida. Hoje, posso dizer com absoluta certeza, que sem instituições como o Arquivo Público, Arquivo Histórico, o Instituto Histórico e Geográfico de Jaguarão, eu não estaria dando entrevista para você, já que não teria conseguido desenvolver meu trabalho. Também sou muito grato as pessoas, das instituições de acervo e de ensino, da vida particular, em suma, todas as que passaram na minha vida e contribuíram para que o trabalho que desenvolvo seja possível de realizar. 

7) A gente percebe, na historiografia, um trânsito entre estudos de maior abrangência espacial para outros mais circunscritos geograficamente. Em sua opinião, o que se ganha e o que se perde nesse deslocamento?

Muitas vezes, eu sou muito duro comigo mesmo em relação a isso. Talvez seja a influência da Teoria da História na minha vida. Entro em crise quando começo a pensar que meu trabalho pode não ter impacto na vida das pessoas, ou que não segue alguns critérios historiográficos. O que quero dizer com isso? Que temos muita responsabilidade quando escrevemos nossos artigos, livros, dissertações, teses, etc. Além do fato de muitos desses trabalhos serem financiados com dinheiro público (daí nossa responsabilidade com o que entregamos de volta para a sociedade), acredito ser fundamental escrevermos histórias de fundamento e, que pelo menos, oriente as pessoas no tempo e nas discussões que nos propomos a fazer. Diante disso, penso que uma história mais abrangente tem a vantagem de nos guiar no tempo e nos temas. Por exemplo, uma história mais abrangente sobre a escravidão nas Américas vai me ajudar a entender certas discussões que eu demoraria anos para fazer, se caso eu focasse em localidade por localidade das Américas. Uma história mais generalizante ajuda na elaboração de aulas, palestras. É mais fácil para as pessoas, que estão ouvindo/lendo os trabalhos, no entendimento dos conteúdos expostos. As histórias comparadas, ultimamente, avançaram muito, enriquecendo questões que os estudos recortados dentro das fronteiras nacionais, muitas vezes, não conseguem. Por outro lado, as histórias abrangentes acabam perdendo de foco aquelas relações microssociais que são fundamentais para o aprofundamento de problemas científicos e sociais. Nem todas as respostas estão no macro, assim como nem todas estão no micro. Eu tenho preferência e, minhas escolhas temáticas sugerem uma abordagem mais micro. Acredito que conseguirei, na tese, mostrar através de uma análise microssocial, como a população negra deu significados para a liberdade em contexto que o processo de racialização era crescente. Poderia fazer através de uma abordagem mais ampla? Poderia, mas creio que a análise perderia muito. E, agora, respondendo pra valer sua pergunta, penso que a importância da abrangência espacial nos trabalhos é muito relativa. Podemos trabalhar com uma pequena freguesia do XIX e tirar histórias sensacionais e altamente relevantes. Também, posso fazer uma história transnacional totalmente desconexa, perdendo a complexidade de análise que os variados contextos sugerem. Tudo depende das fontes que os pesquisadores utilizam, quais seus métodos, suas teorias, interesses pessoais e acadêmicos. Jaguarão do século XIX, por exemplo, perto de muitas cidades da época, era um pequeno pontinho dentro Império brasileiro. Geograficamente o município é grande, mas é formado por um pequeno núcleo urbano rodeado de campos e propriedades rurais. O que define a importância dessa localidade, na minha opinião, é justamente a potencialidade de sua história. A cidade de Jaguarão sempre foi e continua sendo uma cidade negra, protagonizada por pessoas negras em todos os campos de análise que se possa imaginar. Embora a documentação de Jaguarão esteja muito dispersa e seja pouco homogênea, ela é rica em potencial investigativo. Tanto o é, que grande parte da minha trajetória acadêmica está voltada para ela, não necessitando, portanto, alargar as barreiras geográficas. Eu me desdobro para dar conta de uma pequena parcela dessa história. Enfim, Jaguarão tem muita história. As histórias extraídas desse pequeno ponto do Sul do Rio Grande do Sul não perdem em nada, em termos de qualidade, para aquelas que são tecidas a partir dos grandes centros do país.

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