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Entrevista com Beatriz Teixeira Weber - Parte II

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APERS Entrevista
APERS Entrevista - Foto: Divulga APERS

Na semana anterior, conhecemos um pouco sobre as temáticas, abordagens teóricas e fontes das pesquisas da historiadora Beatriz Weber. Hoje, vamos conferir a continuidade da entrevista!

Que usos você faz dos processos criminais? Em que eles podem nos ajudar a entender melhor a história da saúde?

A partir dos casos citados acima (1ª parte da entrevista - clique aqui), pude compreender as concepções sobre cura e tratamentos que circulavam entre diversos grupos. Para os médicos, há concepções diferentes do que era o seu trabalho, qual o pagamento que deveria ser executado, o que era considerado ilícito e/ou imoral. Para a população mais ampla, pode-se perceber como entendiam os procedimentos de cura e o que seria considerado inaceitável. Para curandeiros específicos, como eles entendiam suas práticas, como se portavam frente ao público usuário e frente aos órgãos controladores. É uma fonte que pode ser compreendida no entrecruzamento com outros conjuntos documentais, mas é muito rica. Além dela, eu utilizei jornais e revistas, legislação, correspondências, relatórios e requerimentos do governo do estado do Rio grande do Sul e da Secretaria de Negócios do Interior e Exterior, documentos da Intendência de Porto Alegre, da Assistência Pública, da Câmara Municipal, da Faculdade de Medicina e da Santa Casa de Misericórdia. Cada um dos acervos custodiados abre inúmeras possibilidades de outras reflexões a partir da saúde. Mas os processos crimes são uma fonte muito generosa para diversas abordagens, tendo, hoje, grupos que trabalham sobre história do crime e das práticas de contravenção. 

Como foram suas incursões pela história oral?

Não utilizei história oral nas pesquisas de mestrado e doutorado. Como professora é que participei de um projeto de história urbana a partir do depoimento de moradores de algumas regiões de Porto Alegre na década de 1990, coordenado pela professora Luiza Kliemann, da UFRGS na época, e que também organizou o Centro de Documentação e Pesquisa da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre. Foi minha orientadora de mestrado. Já no final dos anos 1990 participei de um projeto de memória de lideranças políticas de Santa Maria, envolvendo UFSM, Câmara de Vereadores de Santa Maria e Prefeitura Municipal, que organizou depoimentos de algumas dessas lideranças. É uma experiência muita rica para os pesquisadores na área pelos avanços significativos que pode oferecer para a história.

Em sua tese você apresenta os complexos caminhos pelos quais a medicina procurou colocar-se como saber de cura socialmente validado e legítimo, ainda que sua aceitação pelos populares nunca tenha sido plena. Entretanto, no momento atual, os conhecimentos médicos estão sujeitos a questionamentos que vêm de integrantes do alto aparato estatal. Como você vê essa questão?

As possibilidades que o conhecimento sistemático, técnico, científico podem oferecer são indiscutíveis. A ignorância não é um valor. Repetindo frases de grandes escritores, se o conhecimento pode criar problemas, não é através da ignorância que podemos solucioná-los. Hipócrates, grego considerado “pai da medicina”, no século V a.C., afirmava que saber e crer que se sabe são coisas diferentes, crer que se sabe é ignorância que não leva a nenhum lugar. A compreensão das disputas entre perspectivas diferentes nos permite compreender o funcionamento dessas instâncias, mas não justifica que ignoremos o que o conhecimento mais sistemático pode oferecer. À história cabe a compreensão desses processos de disputa em relação às várias tradições de cura e como a medicina procurou se instituir. Inclusive, esclarece como pudemos chegar até aqui, com o uso de vacinas e o controle de muitas doenças. Ignorar esse conhecimento por parte de órgãos administrativos estatais só gera o caos e a morte que enfrentamos hoje.

Historiadora Beatriz Weber

Em tempos de pandemia, o que uma análise histórica e diacrônica tem a oferecer?

Apesar das muitas diferenças entre os vários movimentos pandêmicos, a história permite refletir sobre os acontecimentos. Nas várias disputas no campo médico, a compreensão dos interesses em debate permite identificar quais interesses estão em jogo. Muitos desses interesses diferentes levam a opções sem volta. Pandemias surgiram e/ou se agravaram pela discriminação, deteriorização climática, a violência contra a natureza exercida por forças extrativistas sem regulação e a negação dos direitos humanos, como o direito à saúde de qualquer pessoa, problemas glorificados pelo neoliberalismo. As epidemias magnificam a relação entre os sistemas econômicos injustos e as condições adversas de vida e confirmaram a persistência do racismo. Enfrentamos hoje, mais uma vez, nossa incapacidade de construir um futuro inclusivo. Mas é fundamental, nesse momento de crise, vermos outras alternativas, uma sociedade que estabeleça direitos iguais a todos, respeitando as diferenças e a natureza. Neste momento de trauma histórico podemos pensar em curas sociais, amparados numa história que dê sentido à condição humana.

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