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Entrevista com Daniela Vallandro de Carvalho – Parte 2

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APERS Entrevista
APERS Entrevista - Foto: Divulga APERS

Na semana anterior, a historiadora Daniela Vallandro de Carvalho nos relatou suas experiências de pesquisa, assim como o papel das fontes primárias custodiadas no Arquivo Público, e também falou sobre suas opções metodológicas. Leia a continuidade da conversa que tivemos com ela.

Você poderia nos contar um pouco mais sobre fontes inovadoras e desafiadoras, como as listagens de escravizados foragidos para o Estado Oriental durante o século XIX?

A listagem de escravizados fugidos na verdade é uma fonte que já tinha sido trabalhada e citada por alguns outros historiadores, ainda que muitas vezes isso tenha sido feito de forma tangencial. O que entendo que eu fiz foi olhar para ela e pensá-la à luz das questões que me eram caras, como a relação entre fronteira-fugas-guerra (tanto a guerra civil farroupilha, como as guerras no Estado Oriental durante a abolição da escravidão em solo oriental e a Guerra Grande, posterior ao período Farroupilha). Esse tripé foi crescendo em importância na tese e a lista me proporcionou perceber e explorar algumas questões mais específicas sobre as fugas de escravizados. Importante dizer que, apesar dessa listagem ser conhecida como uma listagem de fugas de escravos para o Estado Oriental, há nela também reivindicações de escravos fugidos para algumas províncias argentinas, como Entre-Rios e Corrientes e também para o Paraguai. Eu transcrevi a lista toda e ela se encontra anexa à tese. Explorei ela de várias formas. Há três questões que eu destaco como importantes na análise que faço: a primeira diz respeito às descrições físicas dos escravos feitas pelos senhores nessa listagem. Muitas vezes as descrições apresentam marcas físicas que eram marcas de doenças ou problemas de saúde que muitos tiveram. Ao relacionar com a atividade desempenhada pelos escravos, foi possível identificar que muitas destas marcas tinham relação direta com o tipo de trabalho desempenhado pelos escravos na vida campeira. Isso nos mostra uma outra faceta da composição da vida destes indivíduos, que além da escravidão, da guerra, das fugas também tiveram problemas em seus corpos e que afetaram sua saúde em função do excesso de trabalho e da dureza das suas atividades. A segunda questão é que é possível perceber a presença de muitos destes escravos “sentando praça” nos espaços de fuga, fato este que reforça essa “tradição” de escravos servirem em exércitos e polícias (e mesmo em bandos guerreiros informais) pela dilatada fronteira platina, desde pelo menos as lutas de independência nessa região. E uma terceira questão que não explorei suficientemente, mas que aponto na tese, é o fato da presença de fugas de escravos com mulheres e filhos, elemento muito interessante que precisa ser melhor trabalhado ainda, já que sabemos que historiograficamente há uma predominância da discussão da fuga como um elemento individual operado pelos cativos.

Quais são as principais contribuições da Nova História Militar à História Social da Escravidão?

Daniela Vallandro de Carvalho
Daniela Vallandro de Carvalho

Quando me interessei em pesquisar trajetórias de homens negros na Farroupilha eu entendia que precisava dar um novo olhar a essa temática e foi justamente a Nova História Militar que me forneceu os subsídios para que pudesse oferecer algo diferente do que já havia sido feito. Nesse sentido, a Nova História Militar de forma geral já inova ao propor um amplo diálogo com a história social. Se a história militar tradicional esteve marcada pelo viés político e focada nos “grandes eventos” e “grandes homens” a Nova História Militar propôs olhar novamente para a vida militar e enxergá-la conectada a outros grupos que sempre estiveram presentes nesse universo, seja formalmente, seja tangencialmente e traze-los à tona na historiografia. Entendo que a própria ideia de guerras/conflitos também passa a ser redimensionada nessa perspectiva pois passa a pensar como estes mesmos eventos afetaram direta ou indiretamente as populações, mesmo as que não estavam envolvidas diretamente na experiência militar. No entanto, mesmo ao trazer esses grupos “menos” importantes à história, também operou análises sempre relacionais, auxiliando a compreendermos como se estruturavam as relações hierárquicas nesse universo militarizado de forma que hoje sabemos que existe uma miríade bem mais ampla de ações, experiências, homens, grupos entre os “grandes homens” e os “subalternos”. Os próprios generais da história ganharam em humanidade, no sentido de que a Nova História Militar auxiliou a retirá-los do pedestal mítico e recolocou-os agindo, fazendo escolhas, cometendo erros e acertos no terreno da história. Assim, a Nova História Militar agregou muito às discussões já bastante complexas e frutíferas da história social da escravidão, pois uniu, em análise, dois componentes bastante estruturais da sociedade brasileira: a escravização e a militarização da sociedade, presente desde os tempos coloniais.

Como foi sua experiência no processo de patrimonialização das memórias dos Lanceiros Negros? Podemos dizer que o patrimônio “material” preservado no APERS foi importante para a construção de um patrimônio “imaterial”?

A experiência de pesquisa no Inventário Nacional de Referências Culturais – INRC/IPHAN, para além da importância para mim, como pesquisadora, e que redefiniu meus próprios interesses de pesquisa, como já disse na resposta da primeira questão, foi uma experiência importante para o trato do assunto, já que a memória em relação aos lanceiros foi acessada por demandas de comunidades negras de algumas regiões do Rio Grande do Sul. Acho essa questão fundamental para o processo de constituição dessa memória como patrimônio cultural do Estado. A imaterialidade das narrativas que evocam a questão tem força por si só, legitimidade e foi/é importantíssima para um trabalho que buscava inventariar memórias através de um lugar simbólico para essas comunidades negras – o Cerro de Porongos. No entanto, nós historiadores que trabalhamos na pesquisa (eu e o Vinicius Pereira de Oliveira) pudemos contribuir ainda com o elemento “pesquisa documental”, de forma que o trabalho foi cercado por todos os lados, já que era uma equipe multidisciplinar. A documentação que levantamos nessa pesquisa nos permitiu atestar, sem sombra de dúvidas, a forte presença negra na composição e formação da história do Rio Grande do Sul (elemento que, apesar de ser de conhecimento dos pesquisadores já há décadas, precisa ser reiterado constantemente) como forma de combatermos um discurso – sem embasamento – da branquitude do estado e que se vincula a outros, apropriados e re-apropriados a todo momento, como a relação branquitude e politização; ou seja, de que somos melhores por isso. Evidente que essa falácia precisa ser enfrentada, e a documentação que trabalhamos – fizemos um guia de fontes – onde a documentação do APERS tem peso importante, está aí para corroborar isso. Além disso, o patrimônio “material” também mostrou um universo bastante amplo dessa presença e atuação negra, de forma que sempre há espaços para novas pesquisas com muitas fontes ainda a serem exploradas e novas perguntas a serem feitas.

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